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Casal Sentista
De novo os arrabaldes de Meia Via e de novo uma estrada a limitar dois concelhos. Para nascente e ali bem próximo, encontram-se as terras de Entroncamento, enquanto que, do lado contrário da estrada, se está na freguesia de Santiago, do concelho de Torres Novas.
Cerca de cem residências constituem o lugar. Actualmente, já que, há meio século, o seu número andaria por metade. Tal como
em Casal do Pote se registou, em Casal Sentista existiu, em época cuja longevidade se desconhece, um forno de tijolo e telha, que se acredita estar na origem do primitivo nome da povoação. O “forno do Crispim”, como a olaria era conhecida, terá sido assim a primeira designação do local. Vai-se inquirindo sobre a origem do termo “Sentista” e ouve-se que o nome provém de “assentista”, antiga figura de funcionário do reino, que se encarregava do levantamento das necessidades do aprovisionamento das tropas. Na ausência de outras fontes, registe-se, como genuína a informação popular.
O forno há muito deixou de laborar. Entretanto, o lugar foi crescendo. Para as bandas de Meia Via e Árgea surgiu, tempos mais tarde, uma granja agro-pecuária, conhecida por Casal dos Almeirinhos. Na subida para Pintainhos, no local onde actualmente se estende a Rua da Boavista e já próximo do Vale das Éguas - a que se faz referência no capitulo dedicado a Charneca da Meia Via – diz-se ter vivo “um povo remoto”. Não sabem quando, nem que povo terá sido. Garantem, porém, que alguém ali viveu “num tempo muito distante”.
Em tempos não muito distantes, todos os campos em redor integravam um pequeno mundo de actividades agrícolas. Nas Quintas da Vitoria, da Coutada e da Barroca, grandes extensões de terra eram campos de oliveiras, figueiras e cereais. Também a elas, por ocasião das colheitas, chegavam os “barrões”, grupos de rurais oriundos do norte do distrito e das zonas de Pombal e Ansião. E uma vez ainda se ouvem referencias aos bailes e festas, noite fora, nos barracões das quintas e nas eiras, organizados pelkos alegres forasteiros.
Nas danças e cantares, trazidos pelos “barrões” e adoptados pela região, terá o Rancho Folclórico e Etnográfico de Casal Sentista solhido parte de um repertório, que já soma dezenas de temas. Colectividade surgida em 1987 e instalada, provisoriamente, em espaço gratuitamente cedido por um particular, orgulha-se, porém, da quantidade e recolha de temas, por si própria efectuada, um pouco por toda a região, trabalho aturado, que havia de forçar a que a estreia do grupo apenas acontecesse em Agosto de 1995. em todas as modas se quis manter a genuinidade original e, garantem os responsáveis, são o único agrupamento folclórico a utilizar apenas o harmónio, “porque era com o harmónio que se tocavam as modas nesse tempo”.
Fica-se agradado, com o dinamismo que se respira no seio da jovem colectividade. Ouvem-se referências a festivais de folclore, organizados pela própria colectividade, bem como à participação, em tantos outros, um pouco por todo o país. Momento importante na carreira do jovem agrupamento foi a deslocação ao Brasil em 2004, digressão que lhes permitiu mostrar o genuíno folclore ribatejano, em vários espectáculos de palco e na própria televisão. Contribuem para a manutenção do grupo, a quotização dos poucos sócios que possui, o apoio da Câmara Municipal e, por ocasião dos festivais, também da Junta de Freguesia de Santiago.
Vivos se mantêm os documentos musicais, que a sensibilidade popular criou. Lamenta-se, porém, que, como em tantas outras localidades, tenham desaparecido algumas das mais genuínas tradições, criadas e mantidas por esse mesmo povo, ao longo das gerações. Na verdade, também aqui os bailes e as fogueiras, pelos santos populares, as folias de Carnaval, as ofertas de amêndoas e os bailes de rua, “com concertinas, harmónios e pífaros”, pela quadra pascal, são agora páginas de um livro de recordações, que os mais velhos ainda desfolham. Livro onde se diz de passados Natais, quando os filhos emigrados chegavam de longe, para se juntarem aos pais e com eles festejarem aquela transcendente época do ano.
Árvores inteiras alimentavam a fogueira da Noite do Galo e havia vinho, assavam-se frangos e febras e estoiravam, no silêncio da noite, dúzias de foguetes, enquanto os mais devotos assistiam às cerimónias religiosas, que decorriam no Entroncamento e Meia Via. Tudo cessava a meio da madrugada. Tudo menos a fogueira, que habitualmente se mantinha viva até ao Ano Novo.
Persistem, no entanto, algumas esperanças. Longos anos suspensos, o peditório pelos Reis parece querer ressurgir. No passado, percorria-se a povoação, cantando de porta em porta: “Até tens os Reis à porta/ boas festas vos venho dar/ venho pedir licença/ para o ano cá voltar”. E obsequiava-se sempre o grupo de cantadores, com comida, bebida e dinheiro. Cinquenta anos decorreram. Agora, talvez por influência de actividade folclórica, garante-se no lugar que os cantos de Reis irão voltar à rua, sempre que a quadra chegar.
Activa se mantém, por felicidade, a Serração Velha, sempre que surge a Quaresma. Diferente na sua forma, é certo, porém imbuída pelo mesmo objectivo e servida pelos mesmos ingredientes. Por iniciativa do rancho, saem então à rua grupos de jovens, munidos de cortiços e de um pau – a “erra” – rumam a um ponto alto e aí entoam uma lengalenga, sempre pouco abonatória para os mais idosos da povoação.
“Aqui depende-se muito do Entroncamento” vão esclarecendo. É natural. A cidade ferroviária está logo ali, bem mais próxima que a sede do concelho e é lá que procuram o comércio, a saúde e assistência e, em grande parte o trabalho.
Por muitos anos, os habitantes do lugar, embora ocupados no quotidiano das profissões, mantinham razoáveis pedaços de terra – em muitos casos pequenas fazendas – que amanhavam nos tempos livres. “As fazendas ainda existem, mas já ninguém as amanha”. Restam, como se tornou hábito, os pequenos quintais e as modestas hortas, nas traseiras das casas. “O resto é mato”, interrompido, aqui e além, por manchas salpicadas de pinheiros e eucaliptos.
Voltemos ao espaço urbano do lugar. Quase cem fogos justificaram, em 1983 3 1995, o jardim-de-infância, este último instalado em precário pré-fabricado.
O comércio e a indústria locais, distribuídos pelo espaço dos dois concelhos, resumem-se a uma padaria, uma mercearia, uma casa de petiscos, dois cafés e um restaurante, na área comercial. Entretanto, uma antiga carpintaria deixou de laborar, restando uma oficina de automóveis, uma unidade de fabrico de blocos de cimento, “das mais importantes do país” e uma oficina de montagens eléctricas.
Teimosamente resistente, um velho alambique de “queimar” aguardente, por lá se mantém em actividade. Passa por ele o respirar da saudade, de tempos que os mais velhos guardam nos recantos da memória. Tempos, por ventura perdidos no próprio tempo. Sombras de um passado que, vamos descobrindo, como quem ouve a suave melopeia que embala o sonho dos homens.
Nada é como antes,
em Casal Sentista. O moinho do Crispim há muito desapareceu. Desses tempos resta um alambique onde, certamente, se não queimam os sonhos de quem quer devolver ao presente a rica herança do povo que somos.
O Rancho Folclórico e Etnográfico parece conhecer o caminho para o conseguir.
Autor: José Lúcio

© - Junho de 2008 |